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as estações estão trocadas, falando em trocado quase não me sobra nada nos bolsos. tenho ficado nu quase que o tempo todo, sem espelho. mas não se engane achando que o meu verão é amarelo ou alaranjado, to me summer is blue.

existir apenas basta como uma ideia suburbana, mas o que se produz na cabeça dessa raça humana é cinematograficamente direcionada ao ídolo, todos querem ser o centro. uma ideia tão ambiciosa só poderia dar nesse monte de gente descentralizada.

pois que deparei-me com um desses artistas que parecem ser grandes e imponentes, que te põe dentro daquela sensação de estar sendo olhado por um monstro de vinte metros de altura. desses artistas que só olham pro que quer, e nem esperava mesmo que ele olhasse pra mim depois de chupar e lamber meu pau.

resisti e induzi o seu olhar até ao que eu chamava de meus tons tracejados. fiquei extremamente excitado de novo quando da sua boca saiu o inesperado. falava-me sobre coisas que me interessavam, quase ninguém faz isso. como que um exorcismo extrai dele uma critica palpável e eu não estava iludido, nem bêbado.

só um homem de coragem pode abrir os olhos de outro homem de coragem. os covardes só sabem dar conselhos, e conselhos não servem de nada. claramente mostrou-me por trás de quais grades eu estava, mostrou-me os caminhos que precisava pisar. doeu, mas ofuscadamente eu já sabia.

vaidosamente interesso-me pelas simetrias estéticas. uma certa obsessão por uma perfeição quase que inatingível mas inteligível. nenhuma novidade mas não tinha me dado conta do quanto vinha limitando meu interesse por conceitos e isso tem sido uma das coisas mais difíceis na minha vida.

agora entro em processo de edição, de libertação. algo como um conselho covarde de um grande artista manipulador;

- liberta-te da vaidade e terás nas mãos a arte.

vou com você para além de onde vai a vista

todo osso
todo ócio
é quase nada
depois da morte
vai pro inferno
que o parta

o homem só é homem por que acredita que é homem, mas no fundo é bicho mesmo.

a semana começou e voltei com uma frase na cabeça que ouvi sentado no banco de um ônibus. “todo homem hoje é!” uma indagação bastante perigosa pra ser usada dentro de um ônibus lotado de homens. ok! fiquei pensando sobre o que é ser homem, o dia todo.

o homem! o que é ser homem? por que se discute tão pouco o homem? só a mulher, só a mulher. existe uma hierarquia implícita na questão do gênero. uma mulher com características mais lógicas e racionais é temida, almejada e respeitada. um homem com características lógicas e sensíveis é no mínimo homossexual, pra dizer que respeitamos.

o domínio do gênero masculino sobre o mundo já está impresso em todos os livros. não há mais o que falar do tamanho do buraco feito na nossa crosta terrestre masculina que tece o dedão ao último fio de cabelo. mas mesmo assim resistimos a verdade, criamos substantivos, no senso cômico pelo menos, hetero, metros, ninfos, homos, sapiens, bi, bah!

compreendo plenamente, mas acho injusto nos tempos de hoje ainda se pensar em gênero dominante. e isso vem sendo impregnado pelo sexo, pela religião pela humanidade. dessa forma nós seriamos o sexo frágil, nós não usamos saias no verão, nós não temos direito de descontos nas boates, e festas, e nós não usamos salto alto que foi uma invenção para um homem baixo. e nós evitamos o amor, o amor não é assunto de homem.

seguimos, enquanto elas estão soltas mentendo a língua no amor. amor o que tu é? qual é a tua cara? masculina? feminina? somos natureza e amor é natureza. assim toda natureza é gay, toda mulher é gay, todo homem é gay, todo gay é homem, todo homem é mulher, todo homem amor, todo amor gay… seja um homem disposto ao amor, nenhum homem hoje é.

lava roupa. água sanitária. desinfetante. condicionador. creme dental. você. sabão, sapólio, limpador, limpa dor. lava a roupa suja. você. lixa, papel higiênico no iogurte?!água, chá, vitamina. batata palha caso você… você de novo!  não! molho, milho, canção de supermercado, não, sim o rei! pensei, extrato de tomate, extrato bancário, extrato de pensamento, quase chorei. mel, por favor mel. pão, bisnaguinha,cafezinho da tarde, gostoso. você. massa, tudo na massa, se joga na massa. centro. tomate, jarra, água fresca, vento fresco,verão. lentilha, na tentativa de ser um dia um vegetariano, credo que fresco. feijão, ferro, ferro, academia, ah segunda feira! arroz, a mulher não escolhe o arroz dela e não sai da frente, a mulher parece a sua mãe, você. farinha, manteiga, sessenta centavos, ops…! atrasado porra! maçã,  hambúrguer, torrada, biscoito, biscoito mais barato. barata, veneno, tomar, quer dizer voltar pro outro corredor. você. caldo, refresco, vodka, queijo, sardinha, protetor solar. gelatina, não sei mas sempre penso na bunda, você. óleo, vinagre, azeite, creme de leite, leite condensado, chocolate, brigadeiro, você. ah… amendoim, sol lá fora, cerveja, cigarro… ah amanhã eu compro o resto.

da minha memória esvaiu-se

o sentar sobre formigueiros nu
e ter o órgão todo mordiscado.

a bicada na ponta dos dedos pelas galinhas
através das frestas do assoalho.

da minha memória esvaiu-se

o esconderijo após cometer
um delito perdoável.

as interrogações que  contestavam
o incontestável.

da  minha memória esvaiu-se
da dela, não.

para minha mãe

ela acordou.
ele também
o céu dela chovia.
o céu dele nublava.
ela acordou muito cedo pra uma boêmia.
ele acordou muito cedo pra um vagabundo.
ela alongou-se.
ele também.
ela percorria o apartamento atrapalhadamente em busca de um copo d’água.
ele percorria o apartamento na ponta dos pés em busca de uma xícara de café.
ela sorriu.
ele resmungou.
ela achou a chuva linda.
ele achou que ia chover.
ela vestiu-se.
ele vestiu-se.
ele mandou uma mensagem pra ela.
ela respondeu.
ele sorriu.

sou um desses homens que passam a vida sem descobrir que é o rei de si.
meu amor, como governar? como governar?

eu quero um amor adjacente

não sou mais nada do que fui
agora sou um “eu” cheio dos que fui
e esse “eu” de hoje é o que bombeia,
dá fluxo ao “eu” de amanhã

é difícil não cair

se sustentar
quando o que você
tem para se apoiar
é onda de mar

deixo exposto, sou do sul. amo floripa. sou louco por mim. sou impulsivo. perco sempre meus horários. gente careta me esnoba. tenho péssima memória. adoro música. gosto de gente bem vestida. cozinho bem. tenho algumas peculiaridades que tornam-me fascinantemente chato. odeio dobradinha. amo adriana calcanhotto. amo cores. sou louco por varandas. eu afasto gente sem humor. amo os normais. compro discos pela capa. felinos, amo-os. sou um desastre com dinheiro. sou tímido e espalhafatoso. amo klimt. deixo aos populares a mediocridade. pinto telas, jogo metade fora. sou demasiadamente apaixonado por minhas amigas. sou esganado. não sei dançar, mas eu danço. não sei dirigir, mas tenho habilitação. amo café. não gosto de ar condicionado. não sei assoviar. amo caio fernando abreu. deixo explicito, sou patético. odeio alaranjado. não sei desenhar. sou hedonista. tenho dedos lindos. desenho bem. não sei nadar. gosto do outono. adoro maconha. amo presentear. amo arte. odeio julgamentos equivocados. não tolero maus tratos. gosto de teatro. eu não gosto de sensacionalistas. sou muito peludo. julgo equivocadamente. adoro a mafalda. tenho pressa. contradigo-me muito. adoro bethânia. amo chocolate. adoro gente moderninha. gente underground me esnoba. quero um amor adjacente. deixo dito, tenho alma frágil. nunca fui feliz no amor. não guardo mágoas. durmo pouco. tenho tesão por sotaque gaucho. amo cinema europeu. quero organizar tudo. detesto ciências exatas. gosto de gente clara. amo elis regina. preciso aprender a ser preciso. sou magro. odeio folclorização. uso muitas metáforas. desprezo gente insensível. amo cinza. fumo mais cigarros a noite. gosto de ficar em casa. não tenho superstição alguma. adoro a fernanda young. amo amy. preciso sentir-me aceito nos lugares que vou. não sei se terei filhos. tenho tantas perguntas. não gosto de falar com grupos. rio de mim mesmo. a vida é um doce. amo stacey kent. sou perdido por gente doida. deixo a narrativa, sou louco. amo fotografar. amo caetano. desprezo gente que se leva a sério. adoro vozes femininas. adoro frutas. adoro moriarty. amo johan potma. pratico a irresponsabilidade. tenho inveja dos pássaros. quero morar em london. adoro azul. visto muito preto. amo dramas. adiro ao minimalismo. amo frida kahlo. adoro feiras. odeio gente deslumbrada. faço coleções findáveis.. adoro feist. tenho um nariz esquisito. adio decisões importantes. calço 39. adoro tequila. amo uma boa conversa. quero morar perto do mar. gente alegre me esnoba. adoro radioread. adoro pato fu. adoro los hermanos. adoro portishead. eu gosto de programas diurnos. sou louco pelo inesperado. detesto vícios estéticos. custo a dormir no carro. sou tenso. sou fotogênico. amo almodóvar. dizem que eu deixo-me muito exposto.
baseado no auto retrato de adriana calcanhotto.

ela não te mentia
quando dizia
que era pra sempre.
bem sei quanto ela te amou.

eu sentia
que acabaria
como acaba sempre.
agora vem cá, já passou.

em baixo,
é a mesma história
de um amor sem fim
que sempre
acaba em mim
sem mais acreditar.

subamos,
subamos as árvores.
subornamos,
sabotando a altura
ninguém nos vê.

aqui em cima,
já podemos ser folha

enquanto te espero um pouco mais perto, cai da esfera do mundo uma chuva de ácidos sobre minha áspera língua exposta.
 para rômulo.

a concisão será uma tragédia na minha vida de poeta.

já vejo indícios
de Vinícius,
solto pela casa.
mexendo
nos meus discos,
…nos meus vícios
até descobrir por acaso
um poeta no meio dos livros.
para meu sobrinho Vinícius.

plagiei tua mentira

agora temos a verdade

de sermos cúmplices

tenho a impressão
de que posso ver-me
com teus olhos.
mas o brilho dessa íris
não é castanho, é verde.
entranha-se um gostar
que almeja ver-te
semi-olhar.

para david.

ah solidão
me desgruda
antes que
eu te destrua
com uma companhia
melhor a que a sua.

depois do tempo
veio outro tempo
e outro tempo.
o vento bateu
a realidade.
não há mais
saudade,
como não há
mais vontade.

…mas às vezes dura mais que um instante ou um momento, e aí é assustador! acho mesmo que é bom viver das impossibilidades. talvez não resolva nada, mas causa efeitos anestésicos. não que a realidade possível não seja solene, ela é, mas é preciso acreditar, e é preciso acreditar muito. pois acreditar no possível é como passar fins de semana inteiros lendo e sair argumentando idéias pré-fabricadas. quero mais, como num grito de urgência. acreditar nas impossibilidades, acreditar nas coisas reinventadas, acreditar no amor. estou farto dos que acreditam só no que é possível.

tem um nó na linha do horizonte.

é difícil ser um só, tem de ser muitos.

trêmulas assinaturas
roda , roda a caneta
e é sempre teu nome
nas linhas cinzas
de um azul jeans turquesa
um céu de criaturas
invadem minha folha
e escrevem teu nome
tão cruel quanto minha letra
fria e tremula
quanto mais eu te escrevia o nome
mais eu te tirava de mim
respiro fundo
a sua pele
a cada
segundo ao
seu lado.
de um todo,
o tempo
parece ser
um tempo
melhor.

 

quando liberei a primeira lágrima as outras todas acumuladas nos meus olhos resolveram sair assim uma atrás da outra, chorei por umas duas horas uma vida inteira. 

as unhas dela estão pintadas
de vermelho carmim
há tempos já não a via
tão bela assim

nem sei como são seus cabelos
às vezes lisos, às vezes crespos
às vezes soltos, às vezes presos,
mas sempre bela pra si

não sei de que estampa ela se veste
ela ativa o botão do meu sorriso
desperta amores não correspondidos
e não sai sem os seus brincos

argolas, penas, pérolas, pequenas
ombros nus, samba e blues

para keila

todo meu declínio é pra ganhar impulso.

não sei dizer, na verdade não sei se tenho algo a dizer. as palavras são como miragens pra mim. quando penso em usá-las me somem da ponta dos dedos, da ponta da língua. mas observo muita coisa. as letras organizadas nas placas, nos livros, nos papéis. no caminho que faço diariamente do trabalho a minha casa não vejo muita gente interessante. então as placas tem me guiado a atenção. são tantas proibições. os automóveis não são livres nessas ruas, eu sou. no caminho vejo o cemitério de azulejos, acho inclusive que é a melhor parte do caminho. paro perto da placa pare e observo o cemitério. cada azulejo tem um passado, um desenho, um motivo por estar ali. eu não tenho motivos nenhum pra estar ali. não tenho se quer alguma intenção. parar e reparar talvez tenha sido uma escolha, talvez uma ilusão, talvez uma forma de transportar-me. como faço com os cigarros e os outros com os carros.

encolhia os dedos bem desenhados dos pés e percorria assim pela casa inteira  de modo a cumprir um exercício rotineiro.

eu o olhava.

“tenho por principio
manter o teu sorriso
tento manter distancia de precipícios
e acho até que temos tido sorte
e nos mantido fortes
românticos assim…
não sei se teremos um filho,
uma casa de campo
ou só uma canção.”

para carla.

meu coração em abril,
abriu-se tanto que se feriu
com um graveto de folha seca
que o outono rude chacoalhou e caiu

os diabos mais maliciosos
entraram assim fazendo bagunça
deixando tudo fora do lugar
artérias, pulmões, coração

atropelando palavras
na procura da precisão
e os diabos fazendo arte
construindo castelos de baralho

eu, um touro acinzentado quase aniquilado expresso-me num grito de desperdício;

- o que esses diabos querem é transformar-me num anjo desconfigurado!

o reflexo dos seus sonhos e medos em mim me assusta. aqui quase não sinto faltas, mas meu peito faz um barulho de ausência, aquele mesmo barulho que ouvia no seu peito quando deitava sobre seu colo em busca de conforto. o tempo passa cheio de cicatrizes aquelas que escancaro e que escondes. o amor é cheio de cicatrizes, o nosso amor é límpido e somos dois tímidos. a vida é cheia de circunstâncias. a vida passa rápido demais e vai apagando a perfeição da juventude. eu sinto ainda minhas pernas aquecidas pelas tuas nas noites de inverno. eu sinto ainda o gosto do leite queimado nos dias de tosse, sinto a dedicação total no bolo de aniversário, sinto o beijo e a forma cuidadosa como me cobria antes de dormir e tapava meus pesadelos todos, sinto as dolorosas penas, sinto ainda a tua força pra encarar a vida cheia de arte. e ainda sinto esse amor cintilando.

para minha mãe

ele é um desses demônio descontente e usa como todos os demônios máscaras, eu o sustento em vantagens.

e eu disse a ela;

- eu esperava mais dele!
eu sei sou arcaico,
retrogrado,
e espero demais o simples.

ela disse;

- o simples é pros grandes,
ele é mediano.
dos humanos não se espera nada,
nem dos grandes
quanto mais dos medianos.

eu ri.

limpa meu anjo,
teus olhos com pétalas brancas, 
cuide desse olhar tão doce e colorido. 

não deixe que homens maus destruam tuas esperanças  
e nem que a dor deforme tuas lembranças.

cuida meu anjo,
das cores que te mostrei, 
não deixe que o tempo às façam desbotar.

não desiluda das rosas vermelhas, 
chore lágrimas rosa chá
que o amor ainda há de chegar.

faz meu coração dar saltos

pular as sete ondas

me assalta por dentro

me aciona bombas

e nem faz idéia

tenho dedos cansados e atentos. tenho dedos carentes, vigentes.  videntes ao desejo do toque. dedos jogando dados, já levemente enrugados andam bordando toalhas de sentimentos. ah, tenho os dedos lindos e envolvidos pelo tempo.

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